Uma pesquisa recente da consultoria SKIM, conduzida nos Estados Unidos, levantou um questionamento: diante da incerteza econômica, o que os consumidores continuam comprando, e quais são os itens que saem da lista?
O estudo americano mostrou algo que, à primeira vista, parece contraditório. A confiança do consumidor vem caindo, mas o consumo por categoria segue crescendo, ano após ano, desde 2019. A explicação não está no volume de gastos, mas sim em como o orçamento é redistribuído entre categorias. Nesse contexto, algumas categorias se tornam mais protegidas e outras mais vulneráveis. E a decisão sobre continuar comprando uma categoria vem antes da decisão sobre qual marca escolher dentro dela.
Esse padrão de comportamento também aparece nos dados brasileiros, ressalvas suas particularidades e tendências próprias.
A confiança caiu de forma desigual
O Índice de Confiança do Consumidor da FGV IBRE oscilou entre 86 e 89 pontos ao longo de 2026, com o menor patamar do ano registrado em fevereiro. Segundo a economista do FGV IBRE responsável pela leitura do índice, o resultado refletiu o aumento do pessimismo diante do endividamento elevado e dos juros ainda altos, especialmente nas expectativas para os próximos meses. Ao mesmo tempo, a confiança dos consumidores de renda acima de R$ 9.600 chegou a subir no mesmo período. A queda do sentimento de confiança, portanto, se concentra em quem sente mais intensamente a pressão do aumento do custo de vida no orçamento familiar.
Enquanto o IPCA geral desacelerou ao longo de 2026, o grupo "Saúde e cuidados pessoais" teve inflação crescente acima da média. Entre janeiro e julho, o grupo acumulou alta de 4,49%, contra 3,44% do índice cheio, impulsionado sobretudo por produtos de higiene pessoal e perfumes. Isso indica que há uma pressão de preços na categoria de personal care, mesmo em meses de inflação geral controlada.
Marcas próprias crescem como resposta direta à perda de poder de compra
Um dos movimentos mais claros de redistribuição no carrinho de compras no Brasil é o avanço da marca própria. Segundo dados da NielsenIQ apresentados na Abmapro, 58% dos brasileiros planejam ampliar a compra de produtos de marca própria em 2026, num contexto atribuído diretamente à inflação de alimentos e à perda de poder de compra. O segmento de marcas próprias cresce em média 9,2% ao ano no país, com destaque para produtos farmaceuticos e para categorias de home care.
Isso retrata que, mesmo com a subida de preços, essas categorias continuam sendo essenciais ao consumo. No entanto, para que o consumo seja possível, a restrição orçamentária é contornada com a perda de lealdade à marca, havendo uma "comoditização" de certas categorias de produtos.
Nem todos os setores sofrem com essa nova realidade no Brasil
Um dado da Kantar aponta que consumidores das classes D e E chegaram a reduzir gastos em categorias como perecíveis para investir mais na cesta de higiene e beleza, com a preferência por marcas premium nessas classes crescendo 11% no período analisado. Esses indicadores mostram que mesmo sob pressão, o corte de orçamento não é uniforme. Categorias percebidas como selfcare continuam sendo uma prioridade no consumo, às vezes às custas de outras despesas.
Do outro lado da cadeia
Do lado da indústria, a Abiquim documenta um cenário de custo estrutural elevado ao longo de 2026: ociosidade média superior a 35%, avanço acelerado das importações e pressão de custos vinda de energia, gás natural e matérias-primas — agravada por choques externos, como o conflito no Oriente Médio, que eleva o risco de alta em fertilizantes nitrogenados e insumos petroquímicos, além do efeito cambial de um real mais depreciado em cenários de aversão a risco global. O custo sobe, mas a demanda pela categoria segue essencial.
O que isso significa?
Os dados brasileiros não replicam ponto a ponto a metodologia da pesquisa americana, mas a direção do fenômeno é a mesma: o consumidor não para de comprar, ele reorganiza prioridades. Entender onde cada categoria se posiciona nessa reorganização, o que é protegido, o que é renegociado e o que é o primeiro a sair, ajuda quem fabrica e distribui insumos para essas categorias a antecipar demanda, em vez de apenas reagir a ela.
É esse mesmo cenário que orienta o trabalho da Fortag junto aos seus parceiros na indústria química. Acompanhar de perto essas pressões de custo é o que nos permite oferecer a consistência e a previsibilidade que sustentam a resiliência do consumidor na outra ponta da cadeia.
Fontes: FGV IBRE (Índice de Confiança do Consumidor); IBGE (IPCA e IPCA-15); NielsenIQ / Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (Abmapro); Kantar (Painel de Uso e Consumo); Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química).


