Quem compra insumos e matérias-primas químicas de origem internacional sente na prática o quanto a cadeia de importação mudou nos últimos meses.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a escalada do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos no Oriente Médio levou o índice que mede a evolução do preço médio das matérias-primas na indústria brasileira a avançar 19,5% entre o 4º trimestre de 2025 e o 1º trimestre de 2026, o maior patamar desde 2022. O movimento acompanha a alta do petróleo Brent, que subiu na casa de 70% no mesmo período, puxada pela instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa parcela relevante do petróleo comercializado globalmente.
O Estreito de Ormuz é considerado um dos principais pontos de estrangulamento do comércio marítimo mundial: por ali passa uma fração significativa de todo o petróleo transportado por via marítima no planeta. Qualquer instabilidade nessa rota se propaga quase imediatamente para o preço de referência internacional, e de lá para toda a cadeia que depende de derivados de petróleo, o que inclui parte significante da indústria química.
Esse repasse não é imediato nem uniforme. Ele acontece por meio do que o setor petroquímico chama de "spread": a diferença entre o custo da matéria-prima (a nafta, derivada do petróleo) e o preço de venda dos produtos petroquímicos básicos, como eteno e propeno. Quando o petróleo sobe mais rápido do que a indústria consegue repassar ao mercado, esse spread se aperta, e é justamente essa margem apertada que se propaga para os elos seguintes da cadeia.
Isso é relevante para o setor químico porque parte do portfólio de químicos aromáticos, ésteres sintéticos, cetonas e tensoativos tem origem petroquímica.
Esses insumos não vêm diretamente do petróleo bruto: passam por etapas intermediárias — como benzeno, tolueno e xileno — antes de se tornarem a base de ésteres, cetonas e tensoativos específicos usados em fragrâncias e formulações de limpeza. Cada uma dessas etapas intermediárias carrega parte do reajuste de custo da etapa anterior, o que explica por que a alta do petróleo leva algumas semanas para aparecer no preço final desses insumos.
A Abiquim estima que uma variação de US$ 20 no barril do Brent pode reduzir a margem bruta do mercado petroquímico entre 10% e 25%. O impacto do conflito no câmbio, no frete e na disponibilidade de matéria-prima gera um efeito combinado na inflação de preços, ocasionando uma pressão de custos por toda a cadeia até o insumo final.
A própria CNI registrou esse efeito na percepção dos empresários: a falta ou o alto custo de matéria-prima saltou da sexta para a segunda posição no ranking dos principais problemas enfrentados pela indústria brasileira no primeiro trimestre de 2026. Um salto abrupto, que mostra como rapidamente esse tipo de choque se torna prioridade na gestão de custos.
Vale registrar que o cenário teve um alívio parcial: no trimestre seguinte, o índice de preço de matérias-primas da CNI recuou 2 pontos, para 64,1, ainda em nível historicamente alto. Ou seja, a pressão diminuiu de intensidade, mas não voltou ao patamar anterior ao conflito. Isso reforça a análise de que esse tipo de choque tende a deixar um novo piso de custo, mesmo depois que a tensão inicial passa.
Todas as empresas, das que realizam importações diretas às que não importam mas dependem de produtos importados em algum elo da cadeia, sentem esse custo, mais cedo ou mais tarde. A diferença está em como cada empresa se organiza diante disso e em como esse custo é comunicado ao longo da cadeia, até chegar em quem formula.
Na Fortag, esse tipo de leitura de mercado faz parte do trabalho diário de quem acompanha matérias-primas e negocia com fornecedores: entender o motivo por trás de um reajuste é o que separa uma decisão de compra bem informada de uma reação tardia ao mercado.


